Deslocamentos populacionais no Brasil e em áreas limítrofes são hoje muito diferentes daqueles que ocorriam até algumas décadas atrás. Estudo mostra que o novo padrão migratório do país envolve essencialmente áreas urbanas.
Por: Roberto B. de Carvalho
Publicado em 22/01/2013
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Atualizado em 22/01/2013
Vista parcial da zona sul de Sorocaba, no interior de São
Paulo, com cerca de 590 mil habitantes. As cidades de porte médio (com
entre 100 e 500 mil habitantes) são as que mais crescem no Brasil por
influência da migração interna. (foto: Tonelada/ CC 3.0)
Até a década de 1970, o fluxo migratório típico no Brasil era das
áreas rurais para os grandes centros urbanos. Mas esse modelo sofreu
alterações profundas, como mostra o geógrafo Fernando Gomes Braga na
tese de doutorado que defendeu no Programa de Pós-graduação em
Demografia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
“Hoje a maior parte de nossos migrantes não só vem de áreas urbanas
como também se dirige a elas”, sustenta o geógrafo, que é professor do
Instituto Federal de Minas Gerais, em Ouro Preto. Segundo Braga, a
migração rural-urbana arrefeceu no país e quase se iguala, em números,
ao processo denominado ‘rurbanização’ (movimento de habitantes da cidade
para o campo). Ele lembra que a migração definiu a redistribuição
espacial da população brasileira. “Atualmente, quase 90% de nossa gente
vive nos centros urbanos.”
A migração foi o principal veículo dessa mudança radical, ocorrida em
espaço de tempo relativamente curto e motivada, segundo o geógrafo,
pela consolidação econômica de uma sociedade urbana e industrial. “Como
os migrantes vêm de centros urbanos, em geral estão mais qualificados
para o trabalho e adaptados a novas situações.” Isso, segundo ele,
decorre do aumento da seletividade no mercado de trabalho em áreas
metropolitanas e tecnopolos.
“Como os migrantes vêm de centros urbanos, em geral estão mais qualificados para o trabalho e adaptados a novas situações”
Na nova realidade, outros eixos territoriais se consolidam como áreas
urbanizadas no país, com elevada atratividade populacional. Após
examinar as trocas populacionais ocorridas nas 558 microrregiões
brasileiras nos períodos 1975-1980, 1986-1991 e 1995-2000, o geógrafo
identificou, entre outros, os eixos rodoviários Brasília-Belém
(centro-norte) e Brasília-Porto Velho (centro-noroeste), e o que liga
cidades do litoral nordestino.
Mas esses novos padrões migratórios, ressalva Braga, ainda convivem
com o padrão antigo: fluxo Nordeste-Sudeste e desconcentração das
capitais das regiões Sudeste e Sul. “Isso comprova o processo de
‘metropolização’ do país”, resume.
Além de fazer uma análise da migração interna brasileira, com base em
dados dos censos de 1980, 1991 e 2000, a tese de Braga identifica outro
padrão de migrações no Brasil, específico das regiões de fronteira, e
apresenta, de forma inédita, metodologia para reconhecimento das
sobreposições entre migração interna e externa.
Na fronteira
Como o trabalho de Braga pretendia discutir os novos padrões de
migração no Brasil, era preciso focalizar não só os movimentos internos,
mas também os que se dão nas áreas de fronteira. Assim como há uma
dinâmica de mobilidade no interior do país, na fronteira com os vizinhos
do Cone Sul também há intensa circulação populacional.
Embora historicamente consolidadas, as relações migratórias com esses
países mostraram significativo aumento nas últimas décadas,
fortalecendo ainda mais as comunidades instituídas a partir de
interações e trocas.
Com o objetivo de inserir seu trabalho no âmbito dos estudos
culturais, o geógrafo fez distinção entre fronteira e limite. 'Limite'
seria uma linha traçada na cartografia, usada para separar os domínios
de cada nação. Já 'fronteira' seria o espaço da integração, do contato
entre culturas.
- Detalhe da Ponte da Amizade. Situada entre Foz do Iguaçu (Brasil) e Ciudad del Este (Paraguai), a ponte é o principal símbolo da divisa entre os dois países. Na fronteira com o Paraguai, a atividade migratória envolve 29 microrregiões brasileiras. (foto: Ekem/ CC-BY-SA 2.5)
“Isso foi necessário para identificar microrregiões nas quais a
migração transfronteiriça predominasse sobre outros tipos de mobilidade
populacional, como migração interna ou para países não fronteiriços”,
explica. Na fronteira com o Paraguai, por exemplo, constatou-se
atividade migratória envolvendo 29 microrregiões, como as de Foz do
Iguaçu, no Paraná, Chapecó, em Santa Catarina, e Dourados e Campo
Grande, no Mato Grosso do Sul.
No campo da migração externa, Braga constatou ainda, no período
estudado, aumento do número de brasileiros que deixaram o país para
procurar alternativas de trabalho principalmente nos Estados Unidos, no
Japão e em alguns países da Europa Ocidental. “Essa nova dinâmica
migratória levou o saldo migratório internacional brasileiro a ter sinal
negativo pela primeira vez na história do país.”
Sobreposições
Segundo Braga, a bibliografia indica que os migrantes internacionais
também se movem no interior do Brasil. Em sua pesquisa, ele revelou um
padrão de deslocamento interno que envolve microrregiões com elevada
concentração de migrantes paraguaios.
Esse padrão, segundo o geógrafo, difere da migração total que ocorre
no Brasil, sinalizando que a população que circula entre os países de
nossa fronteira também cria redes de trocas internas, no interior da
fronteira ou na articulação com outros centros de influência regional e
nacional.
Braga identificou um subsistema migratório interno articulado com a
migração internacional, mostrando que os dois fenômenos não são
separados
Braga identificou então um subsistema migratório interno articulado
com a migração internacional, mostrando que os dois fenômenos não são
separados, ao menos no caso dos movimentos na fronteira brasileira.
Intitulado ‘Conexões territoriais e redes migratórias: uma análise
dos novos padrões de migração interna e internacional no Brasil’, o
trabalho de Fernando Braga – orientado por Dimitri Fazito, da Faculdade
de Ciências Econômicas da UFMG) – venceu o Prêmio Capes de Teses de 2012 na área de planejamento urbano e regional/demografia.
Roberto B. de CarvalhoCH On-line/ PR
Roberto B. de CarvalhoCH On-line/ PR
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