16 de outubro de 2013

Como Trabalha um Psicanalista

Como podemos encontrar nos escritos de Lacan, a psicanálise dispõe da fala do paciente como único meio de cura, formação ou sondagem. Toda fala procura sempre uma resposta na função de análise e isso se torna evidente através dos meios em que o sujeito coloca a sua complacência e engaja o seu narcisismo. É para além da fala que o sujeito irá buscar sua plenitude. O analista utiliza-se do método chamado de associação livre, trabalho que exige aprendizagem para chegar a entender o seu valor formativo, seus objetivos e, enfim, o seu benefício.
O analista deve suspender as certezas do sujeito e trabalhar com o discurso, mesmo que esse pareça vazio, pois segundo Lacan, a fala constitui a verdade, mesmo que se destina a enganar. Cabe ao analista, na escuta, saber qual é a parte do discurso que traz o termo significativo. O analista opera ouvindo relatos do cotidiano, interjeições, simples lapsos, chistes, sonhos ou até mesmo suspiros de um silêncio, os quais, com uma pontuação oportuna, dá sentido ao discurso do sujeito, libertando o termo de seu contexto rotineiro, submetendo-o aos benefícios da técnica.  
A experiência mostra que existe um paradoxo entre o consciente e o inconsciente, que pode ser resolvido quando este participa das funções da ideia e até do pensamento. Freud, em A Interpretação dos sonhos e a noção do simbolismo analítico, nos mostrou exemplos claros da participação do inconsciente. O sujeito vai muito além do que o indivíduo experimenta subjetivamente” (Lacan, 1998, p.266).
Lacan deixa claro que todo o sintoma pode ser resolvido quando o sujeito se submete a uma análise, por ser o próprio sujeito estruturado pela linguagem e por ser na linguagem que a fala é libertada. Para melhor entendimento, Lacan menciona o que Freud chama de associações livres”, linguagem simbólica que podemos detectar as formas verbais e os nós de sua estrutura que se cruzam, levando a resolução por inteiro do sintoma, pois o desejo do sujeito encontra seu destino no desejo do outro, porque ele tem como primeiro objeto ser reconhecido pelo outro.
A psicanálise considera que todo ato falho e lapso da palavra giram em torno da falha, fazendo parte do discurso bem sucedido, cujo bem entendimento é encontrado apenas com meias palavras.
Para Lacan, a palavra é uma presença feita de ausência,que vem nomear-se em momento original, conceito que o talento de Freud captou em uma brincadeira de criança. O homem fala, pois, mas porque o símbolo o fez homem” (Lacan,1998, p.278).
Portanto, a função simbólica se organiza como uma linguagem e é nela que está contida toda a história do sujeito. Os símbolos envolvem a vida do homem antes mesmo que ele venha ao mundo, logo, fica claro que tudo está no modo em que se dá a realização da fala e da linguagem no sujeito.
Destaca-se, dos ensinamentos de Lacan, um ponto muito interessante, que a fala, por ser um dom da linguagem, surte efeito. No mesmo sentido outro trecho: “(…) a linguagem não é imaterial. É um corpo sutil, mas é corpo (…) Ele interpreta o símbolo e eis que o sintoma, que o inscreve como letras de sofrimento na carne do sujeito, se apaga” (Lacan, 1998 p.307).
Dolto diz que o analista é uma presença humana que escutae como figura humana precisa ser supervisionado e analisado por um clínico mais velho. Essa formação permite ao analista chegar a autencidade de seu ser. Através da escuta é possível ao psicanalista entender o sentido emocional de cada um de seus pacientes, efeito este, somente aos que passaram por longos anos de análise.

Autor:: Rita de Cássia Rodrigues Pereira
Bibliografia
DOLTO, F. – Prefácio in Mannoni, M., A Primeira Entrevista em Psicanálise, Rio de Janeiro, Campus, 1986.
FREUD, S. – A Interpretação dos Sonhos (primeira parte), vol.IV, 1900 Rio de Janeiro, Imago Editora, 1996.
LACAN, J. – Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1998.
NÁSIO, J. D. – Como Trabalha um Psicanalista? Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1999.

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